Runner da Semana - José Carlos

12:23 Rafaela Marreiros 0 Comments


Diretamente de Portugal, nosso entrevistado dessa semana, José Carlos, especialista em trail running ou corrida de montanha, nos conta sua história com a corrida, começando pela de rua e indo ao seu encontro pessoal com a trail running. 
Além de descrever sua participação em uma das provas mais emblemáticas que existem, a Ultra-trail du Mont-Blanc. Curioso(a), já? Confiram abaixo essa entrevista luso-portuguesa cheia de informações sobre essa modalidade de corrida, que, particularmente, eu não conhecia até então. Espero que gostem, e desde já agradeço ao José, por compartilhar conosco suas histórias com a corrida.
Espero que gostem! :)

Ultra Trilho dos Abutres

O que te motivou a começar a correr e há quanto tempo você corre? 
Sempre gostei de desporto que comecei a praticar desde criança, e passei por actividades tão diversificadas como as artes marciais (judo e boxe), desportos aquáticos (vela, mergulho windsurf etc), paraquedismo, remo, enfim…sempre fui um apaixonado pelo desporto. A corrida surgiu mais tarde, quando procurei encontrar uma modalidade que fosse mais fácilmente compatível com a vida profissional cada vez mais intensa, e com a vida familiar.

Vi em seu site runadvisor, que você se dedicou por alguns anos às corridas de rua e depois descobriu as corridas de montanhas, também conhecidas como trail running. Quais seriam os prós e os contras das duas modalidades de corrida (rua/trail), em sua opinião?
Comecei realmente pelas corridas de Estrada, como muitos outros, até porque pouco se falava de provas na Natureza, e a oferta era inexistente ou muito escassa. Mas assim que tomei contacto com as corridas de Montanha, e com aquilo que mais tarde se veio a designar por Trail Running, rápidamente concluí que essa era a modalidade em que queria continuar a minha prática desportiva principal. Quanto às diferenças entre a Estrada e o Trail, têm sobretudo a ver com aquilo que o que o contacto com a Natureza proporciona: um enquadramento cénico de muita beleza por oposição a um ambiente urbano, a diversidade por oposição à monotonia, a constante alteração de ritmo por oposição à constância do mesmo, os ruídos da Natureza e o ar puro, por oposição à poluição e aos ruídos urbanos, e sobretudo o isolamento o desafio e a superação dos obstáculos que a própria Natureza nos coloca. Não pretendo dizer com isto que as corridas de Estrada não sejam também benéficas para a saúde, mas sem dúvida que o Trail apresenta desafios e vantagens bem mais diversificados.
Ultra-Trail du Mont-Blanc
Você conseguiu concluir uma das maiores provas de montanhas do mundo, a Ultra-trail du Mont-Blanc, que consiste em um completo tour por um grupo de montanhas chamado Mont Blanc Massif, que passa por 3 países: França, Suíça e Itália, percorrendo 170 km, enfrentando altitudes de mais de 10.000 m e com um tempo máximo de conclusão de prova de 46 horas. De acordo com o site, a Ultra-trail du Mont-Blanc é a corrida que todo corredor deveria terminar pelo menos uma vez em sua vida. Conte-nos como foi sua experiência e sua rotina de treinos para participar dessa prova, no mínimo, desafiadora.
Utilizando um termo muito em voga e brincando um pouco sobre o tema, diria que foi uma experiência radical. Radical no sentido em que na altura eu e mais dois amigos fomos os 1ºs Portugueses a participar na prova, numa altura em que em Portugal ainda não se falava de Trail, nem havia provas de longa distância que pudéssemos utilizar como forma de progressivamente tomarmos contacto com a Ultra Distância, e com as dificuldades de estar 20, 30 ou mais horas em contínuo esforço físico. E acrescia que também em termos de equipamento disponível e de conhecimentos sobre Nutrição, a situação era muto diferente do que hoje em dia se passa. Procurámos fazer o nosso melhor, introduzindo gradualmente treinos nos trilhos cada vez mais longos, saídas nocturnas que procurassem replicar a situação que viríamos a encontrar na prova, e tentar criar uma disciplina em termos de gestão da nutrição e da hidratação que não colocasse em causa a conclusão do evento. Quanto à prova, excedeu em muito as nossas expectativas. Pelo grau de dificuldade, mas também pela beleza do percurso, pela dimensão do evento e pelo fantástico  ambiente que se vive durante a prova e na própria vila da Chamonix antes e após o evento. É justamente considerado como os “Jogos Olímpicos” do Trail, e aconselho vivamente todos aqueles que gostam de Trail e que pretendem fazer Ultra Distância, a procurarem pelo menos uma vez, participar e concluir a prova.
Hard Trail Monte da Padela
Você já participou de alguma competição no Brasil ou na América Latina?
Não. Nunca, mas espero vir a poder fazê-lo num futuro próximo. 
Existe alguma competição, a qual deseja ainda participar e que seja um desafio pessoal para você?
Muitas, sobretudo algumas nos Estados Unidos como a Hardrock 100, considerada por muitos como a que no na América do Norte que mais se aproxima com as carcterísticas do Ultra Trail do Monte Branco, a Tarawera 100km na Nova Zelândia e a The North Face 100 na Austrália, na Oceania, continente que não conheço.
Como trail runner, o que te fascina mais nessa modalidade de corrida? 

Aquilo que já referi atrás: os grandes espaços, o cenário Natural, o silêncio e o isolamento, a superação, a diversidade de paisagens e terrenos, o poder ter acesso a locais remotos e de grande beleza.
Grand Trail Serra D'arga
Como profissional com formação em planejamento de treinos, medicina de treino desportivo, massagem desportiva e fisioterapia, e com vasta experiência em trail running, como se dá a transição de um corredor de rua para a modalidade de montanha ou trail running?
A transição nem sempre é fácil mas se for feita com algum acompanhamento será certamente mais fácil. As maiores dificuldades têm a ver com a necessária modificação do tipo de passada e técnica de corrida, com a adaptação à alternãncia do ritmo, e sobretudo ao terreno e obstáculos Naturais, e à necessidade de gestão algo complexa da Nutrição/Hidratação e do equipamento.

Madeira Island Ultra Trail
Em 2012, você e um grupo de outros atletas fundaram a ATRP- Associação de Trail Running de Portugal. O que motivou vocês a criarem a ATRP e qual é a missão que vocês desenvolvem através dela?
A principal motivação foi procurar dar à modalidade um enquadramente que promovesse um desenvolvimento sustentado da mesma, um melhor nível qualitativo das organizações, e um aumento do nível de segurança dos participantes. Passado pouco mais de 2 anos, com cerca de 2.200 associados e mais de 200 Clubes, já como membros da FPA - Federação Portuguesa de Atletismo, com a futura participação em 2015 da 1ª Seleção Nacional a representar o País nos Campeonatos do Mundo de Trail, posso afirmar que a realidade excedeu em muito as nossas melhores expectativas. Há ainda muito para fazer e com o contributo de todos esperamos ter sucesso nessas iniciativas.
Em poucas palavras defina: o que é a corrida para você?
A minha “terapia”, e o meu espaço de introspeção. 

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